Na infância, viajar era algo muito distante. Cresci na era da moeda que temos hoje, o Real. Sua valorização e desvalorização frente ao mercado internacional oscilou bastante, impossibilitando a compra de passagens, reserva de hoteis, etc. Além do mais, meus pais nunca demonstraram um espírito viajante, de querer conhecer novas cidades. Como bom filho, fiquei no colo dos meus. Minha ponte aérea era rodoviária: Vitória - Cachoeiro, sempre que possível. Na Atenas Capixaba, viviam meus parentes maternos. Na escola, as excursões: lembro-me de uma para Domingos Martins. Visitei a Pedra Azul, almocei num restaurante bonito e fomos às plantações de morango. Não comi nenhuma. "Não gosto!", dizia eu com a veemência de quem jamais havia provado uma. Minha professora compra uma caixa e tira uma nota de 10 reais da carteira. Haviam várias notas de 10 reais. Era muuuuuuito dinheiro. Me deslumbrei com o poder pela primeira vez.
Já morando em Cachoeiro, demorou para sair do estado. A primeira ida foi ao Rio de Janeiro, ao aniversário de 15 anos de uma prima. Tudo era uma grande novela de Manoel Carlos. O Pão de Açúcar, Copacabana, as igrejas monumentais no centro da cidade. Fiquei na casa de um tio, na Zona Norte. Nessa dualidade, entendi o que é me colocar no lugar do outro.
Sair do Brasil foi só aos 21 anos. Primeira vez no Chile. Nesse tempo, eu já sabia o que era viajar de avião. Já estava imerso no teatro e fui participar de um festival de teatro em Curitiba. Voei com amigos e não senti nervosismo. Ah, a geração televisiva, geradora de uma síndrome do vislumbramento eterno pela imagem... achei lindo toda a burocracia do check-in ao check-out, um luxo, um glamour para poucos. A linda cidade de Curitiba só aumentou esse encantamento. Entretanto, a ida ao Chile foi tensa. O avião, um tanto velho. Foram duas escalas, dobrando o tempo do voo. Mas chegar ao Chile foi entrar em um novo mundo e ter a consciência de que o mundo é grande. Comecei a entender melhor o que é o outro, o diálogo, as pontes que se estabelecem entre os indivíduos. Tudo é circular e múltiplo. Tudo é mais que unidade: é plural e multiplicador. Tudo está sempre a disposição de duas ou mais interpretações, utilidades, funções, produtos, capacidades e possibilidades. Quando saí do continente, na recente ida a Portugal, não foi diferente.
Viajar é abastecer-se de histórias. É entender que há bilhões por aí criando suas vidas, tendo o que contar a cada segundo porque estão andando ou paradas e, ainda assim, se alimentam de vicissitudes, negligenciando ou omitindo aquilo que não lhes interessa e dando a interpretação que querem, já que se vive com o que lhe apetece. Assim se constroem as histórias. Assim se fazem os narradores.
É dessa matéria o meu próximo trabalho.
Foto de André Arçari
Janeiro de 2014.

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