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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

A Sauna Escura

Todas as noites de sábado ele tinha uma programação: ir à sauna gay localizada em Copacabana. Seu intuito não era o de conseguir sexo com o primeiro homem que aparecesse. Ele não era desses. Pensava:

- A experiência é boa. Tenho a noite livre, depois da sauna posso trocar de roupa e esticar a noite na pista de dança. Hoje eu só vou dormir às sete da manhã!

Dez da noite no Rio de Janeiro, a cidade ferve como sempre. Linda como sempre. Ele seguia o mesmo ritual: tomava banho lavando-se bem, colocava a roupa mais bacana e saia a pé mesmo pela Barata Ribeiro, querendo observar o movimento. No caminho, havia de tudo: bares movimentados, mendigos pelas calçadas, sirenes da polícia que transitavam na entrada da favela do Cantagalo. Ao chegar a boate, fechada naquela hora em que os frequentadores ainda nem pensavam em sair de casa, ele toma a porta estreita da esquerda. Já tinha ido lá antes, conhecia os esquemas.

- Boa noite, vim para a sauna. - Dizia ele, de forma simpática como sempre tratava servidores públicos. Para ele, quem trabalha atendendo ao público é prestador de serviços públicos. Simples assim.
- Claro, pode subir essa escada à direita e virar à esquerda. Lá, o recepcionista irá te atender.
- O valor continua em 30 reais, certo?
- Certo.

Sobe à direita, vira à esquerda, paga ao recepcionista que lhe dá uma toalha, um chinelo e uma chave. Era somente com aquela roupa que ele poderia entrar. A chave era para guardar a roupa que ele vestia num vestiário. Feito isso, ele já tinha local certo: a sauna escura. Lá dentro, a única luz presente era a externa que ocasionalmente invadia o espaço quando algum homem abria a porta para entrar ao lugar ou pela parede de blocos de vidro que existia numa lateral. Fora isso, vultos de corpos de todos os tamanhos e formas eram as únicas imagens visíveis. O cheiro do sexo se misturava com o aroma de menta que era jogado no espaço junto ao vapor d'água da sauna. As percepções se transformavam com a pele suada, os olhos tentando enxergar o detalhe dos corpos viris e que de repente topavam com um trio de homens que transavam ao lado, sem pudor algum. Pudor era vocábulo inexistente naquele lugar. Mesmo estando ali, disponível, sua cabeça não pensava em sexo. Havia algo muito inteligente naquele momento. Tudo era uma experiência sociológica, antropológica, política! Pensava: como esses corpos e essas cabeças se dispõem em um lugar como esse? Como a escuridão dá a possibilidade de multiplicar o contato, o sexo, o deslocamento dos corpos e dos pensamentos? A pessoa chega, escolhe o lugar que quer se sentar e por lá fica, fazendo o que quiser com seu corpo ou com o corpo do outro dentro, obviamente, das regras que a sauna estipula aos seus frequentadores. Quer coisa mais democrática do que isso? E o controle do corpo ao ser tocado ou simplesmente observado, como lidar? Estão todos nus, ainda que a toalha os cubra, todos sabem que o objetivo final é o sexo, função a mais que aquela sauna proporcionava. Ele pensa nisso ali, sentado.


Um homem chega. Vê-se apenas o seu vulto. Suas pernas se tocam e a pele da nuca se arrepia. Se dão aos mãos e vão para um quarto fechado.

Agora, a experiência é na prática.

Julho de 2014.

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