Todas as noites de sábado ele tinha uma programação: ir à
sauna gay localizada em Copacabana. Seu intuito não era o de conseguir sexo com
o primeiro homem que aparecesse. Ele não era desses. Pensava:
- A experiência é boa. Tenho a noite livre, depois da sauna
posso trocar de roupa e esticar a noite na pista de dança. Hoje eu só vou
dormir às sete da manhã!
Dez da noite no Rio de Janeiro, a cidade ferve como sempre.
Linda como sempre. Ele seguia o mesmo ritual: tomava banho lavando-se bem,
colocava a roupa mais bacana e saia a pé mesmo pela Barata Ribeiro, querendo
observar o movimento. No caminho, havia de tudo: bares movimentados, mendigos
pelas calçadas, sirenes da polícia que transitavam na entrada da favela do
Cantagalo. Ao chegar a boate, fechada naquela hora em que os frequentadores
ainda nem pensavam em sair de casa, ele toma a porta estreita da esquerda. Já
tinha ido lá antes, conhecia os esquemas.
- Boa noite, vim para a sauna. - Dizia ele, de forma
simpática como sempre tratava servidores públicos. Para ele, quem trabalha
atendendo ao público é prestador de serviços públicos. Simples assim.
- Claro, pode subir essa escada à direita e virar à
esquerda. Lá, o recepcionista irá te atender.
- O valor continua em 30 reais, certo?
- Certo.
Sobe à direita, vira à esquerda, paga ao recepcionista que
lhe dá uma toalha, um chinelo e uma chave. Era somente com aquela roupa que ele
poderia entrar. A chave era para guardar a roupa que ele vestia num vestiário.
Feito isso, ele já tinha local certo: a sauna escura. Lá dentro, a única luz
presente era a externa que ocasionalmente invadia o espaço quando algum homem abria
a porta para entrar ao lugar ou pela parede de blocos de vidro que existia numa
lateral. Fora isso, vultos de corpos de todos os tamanhos e formas eram as
únicas imagens visíveis. O cheiro do sexo se misturava com o aroma de menta que
era jogado no espaço junto ao vapor d'água da sauna. As percepções se
transformavam com a pele suada, os olhos tentando enxergar o detalhe dos corpos
viris e que de repente topavam com um trio de homens que transavam ao lado, sem
pudor algum. Pudor era vocábulo inexistente naquele lugar. Mesmo estando ali,
disponível, sua cabeça não pensava em sexo. Havia algo muito inteligente
naquele momento. Tudo era uma experiência sociológica, antropológica, política!
Pensava: como esses corpos e essas cabeças se dispõem em um lugar como esse?
Como a escuridão dá a possibilidade de multiplicar o contato, o sexo, o
deslocamento dos corpos e dos pensamentos? A pessoa chega, escolhe o lugar que
quer se sentar e por lá fica, fazendo o que quiser com seu corpo ou com o corpo
do outro dentro, obviamente, das regras que a sauna estipula aos seus
frequentadores. Quer coisa mais democrática do que isso? E o controle do corpo
ao ser tocado ou simplesmente observado, como lidar? Estão todos nus, ainda que
a toalha os cubra, todos sabem que o objetivo final é o sexo, função a mais que
aquela sauna proporcionava. Ele pensa nisso ali, sentado.
Um homem chega. Vê-se apenas o seu vulto. Suas pernas se
tocam e a pele da nuca se arrepia. Se dão aos mãos e vão para um quarto
fechado.
Agora, a experiência é na prática.
Julho de 2014.
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