Seria muita petulância minha dizer que sou o melhor dos homens. Não, nem de longe. Esses dias mesmo, um diretor que tem a pretensão de montar Otelo, de Shakespeare, confessou a vontade de me convidar para interpretar Iago, o grande vilão da história, por conta da personalidade do personagem: irônico, sarcástico e de grande astúcia. Mas, minha Mãe santíssima, o que eu, Luiz, tenho a ver com esses adjetivos? Nada, claro. Mas é óbvio que tenho minhas pílulas guardadas a tiracolo de humor negro e vilania. Sou uma tempestade de emoções que fazem ruas transbordarem quando minhas intenções perversas vem a tona. Sim, também sou exagerado. É raro, aviso. Sou bom cidadão. Juro! Como bom filho de minha mãe, que bem me educou, pago meus impostos, pratico a honestidade, faço carinho em animais de rua e pratico a máxima da 'gentileza gera gentileza', já dizia o profeta. Ok, tudo muito humano, muito normal, dentro do caos do mundo em que vivemos, onde tudo muda enquanto muda tudo, é impossível não fazer uma comparação com quem a gente topa pela frente. E são tantos que passam por nossas vidas, vão e vem, uns ficam, outros, nunca mais... Fica a memória, a sensação. Pois bem, fui eu para São Paulo fazer um curso ótimo, excelente, de teatro. Por coincidência, o curso era sobre formas de interpretar Shakespeare. Muitos atores de São Paulo receberam a mim e um amigo de Guaçuí e, por lá, passamos quatro dias intensos de curso. Eis que ela surge: cabelos lisos, botas de cano alto, olhos castanhos escuros, grandes, dominadores, que não sabem se chamam mais atenção que sua enorme echarpe que lhe cobre o pescoço. Chega esfuziante sala a dentro chamando atenção. Sem um boa tarde que seja, considerável, dada a primeira vez em que todos se viam, puxa assunto com o tradutor presente (o professor do curso era inglês, o tradutor nos auxiliaria). Um inglês desenvolvido, claríssimo. Eu, que nem entendo do trato anglo-saxão, quase me sentia incluído na conversa. Ela tira os acessórios e põe suas manguinhas de fora: olhos de desdém, quase nada de contato corporal com os outros ali presentes, ignorava o próprio tradutor e se dirigia ao professor com seu inglês que, naquela altura, já nem me interessava mais. Suas palavras eram de repulsa ao que se praticava. "As pessoas não se dedicam...", "Acho que todos podem mais...", "Quando eu trabalhava com Antunes (Filho, importante diretor teatral brasileiro), não era assim...". Ah, mas aquilo me deu nos nervos. Que pessoinha nojenta! Que isso!? Como ignorar a capacidade intelectual alheia ali, naquela sala, daquela maneira, com aquela ínfima qualidade insuportável. Que desgraça! Veja bem, não é que ela seja ruim, mas é como um dedo podre numa mão de 30 dedos, é como um tumor cancerígeno que se retira com um sopro e se desfaz em poeira quando soprado. É um coisa tão pequena, tão mínima! Daí vejo que é dessa microscópica ação e reação minha que nasce um mal que frutifica, ganha corpo adulto quando chega ao nível da corrupção. Há uma semente que germina e soçobra no campo vasto do limite dos sentimentos. Nasce e morre para nascer de novo e morrer de novo. O problema é quando cresce, multiplica em sentido e ganha o mundo. Aí vira o mal, o dedo vira ser. O podre ganha o poder de dominar numa teia indestrutível. Há sempre, sempre houve e sempre haverá o dedo podre no meio do são. E ele vem vestido envolto em cachecóis, botas de cano alto e olhos de feitiço, feito para presente. Rejeite! Esses embrulhos que o destino nos apresentam são práticos: você vê, entende o que é e pronto, usa se quiser. Desuse! E esqueça.
Julho de 2014
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