A gente é ferrado, a gente se dá mal. Quando se dá bem, é
celebração. O que a gente faz é celebração. Já viu essa palavra no dicionário?
Tá lá: é festa, é ritual, é encontro. O que a gente faz é jogo. Pouca gente
entende. Não entende o ancestral, o que vem de milênios. Nego fala mal, fala
muito mal. Não sabe do que fala. Eles não sabem. A gente sofre. Sofre nos
ensaios, na dura rotina de decorar texto, de marcar cena, de preparar o corpo,
de treinar a voz, de esquematizar o figurino, o cenário, a trilha sonora, a
iluminação. A gente não sabe e vai atrás, aprende tudo isso, do zero. Do zero
na conta do banco. A gente vai à luta, na raça. Nego não compreende. Diz que
não é trabalho, manda a gente caçar o que fazer. Nego não vê, não sente, não
entende. O que a gente faz é artesanato. É um trabalho manual, feito a muitas
mãos, muitas, muitas mãos. E corações. E raciocínio, tudo é meticuloso, pensado
pra dar certo. Nem sempre dá, mas a gente tenta, resiste, persiste, insiste e,
se desiste, é porque fez de tudo. E tudo ainda é tão pouco que vai lá e faz de
novo. A gente não é fácil. Nego vem e fala mal. Eles não sabem do que falam.
Nego vem e fala bem. Massageia a alma. A gente ouve, vê e dá um abraço. Muito
obrigado. Pensa que é fácil? Vem fazer melhor. A gente é fudido. Sofre dia e
noite, enfrenta sol e chuva, atravessa a cidade, enfrenta o trânsito, deixa de
comer, economiza dinheiro, vive de cachê, pede dinheiro emprestado, come na
casa do amigo, aceita favor, deve favor, se diverte quando dá entrevista,
aparece notinha no jornal, divulga foto no Facebook e cria evento. 1000
confirmam, 7 aparecem. Fudeu, tem que apresentar. Vai lá e manda a ver. A gente
cumprimenta, nego aplaude, a gente agradece os patrocinadores. Patrocinadores
quando tem. Agradece a mãe e os melhores amigos que foram nos ver. Não tem
plateia pra fazer sessão, apresenta duas vezes e olhe lá. Filma tudo, inscreve
no festival de teatro e viaja. Viaja muito, demais, registra tudo e vira
notícia, sai na mídia local. Quando volta, é reconhecido. Mentira, tudo mundo
continua sem saber que a gente existe. Se mata de escrever projeto pra edital.
Escreve, reescreve, escreve de madrugada, pensamento flui melhor. É, não dá pra
pagar agência pra escrever projeto. A gente escreve sozinho, faz clipping,
curso de capacitação que grupo ganhador de edital vem dar quando circula na
nossa cidade. Como é mesmo? Lembrei: contrapartida cultural. Circulação,
residência, diversidade cultural da SECULT e Lei Rubem Braga. Myriam Muniz,
Petrobrás e Eletrobrás. Esses últimos, só os picas. A gente faz, a gente anota,
a gente tenta. Inscreve um, dois, cinco. Compete com nego da capital, nego de
Rio-SP. Ganha nada. Não, peraí. Ganhou um. Menor valor, dá graças a Deus. Faz,
ensaia, tenta, resiste, agradece, estreia, viaja, repete. Volta pra casa,
cozinha, passa roupa, vê filme, lê um livro, viaja naquilo e se alimenta
daquilo. Recebe e-mail, telefonema: "você pode fazer um teatro aqui pra
mim?" Fazer um teatro... nego pensa que a gente é arquiteto, engenheiro.
"Cachê é tanto." "Nossa, muito caro!" Engole sapo. Não tem
grupo, faz monólogo, convida amigo pra dirigir. O ensaio é solitário, cinco
meses falando sozinho, ensaiando sozinho, treinando sozinho, vai pra cena
sozinho, joga pro público. Plateia de 5, 7, 20, 30 pessoas. A gente agradece.
Mãe, amigo, família. Bate palma, chora, respira e anda, apresenta no festival,
não passa em edital, compete com bicho cabeça, alimenta filho, sobrevive com
emprego paralelo, acaba assalariado. Não faz o que gosta, vai ao teatro pra encontrar
a liberdade. Se entrega, se joga, esquece do mundo. Nego de toda parte vem e
faz de tudo com a gente. A gente faz de tudo pros outros, pra gente, pro que
não tem nome, vai pra toda parte e quer mais. Não adianta: a gente segue em
frente e agradece.
Agosto de 2014.
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