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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Do Ofício

A gente é ferrado, a gente se dá mal. Quando se dá bem, é celebração. O que a gente faz é celebração. Já viu essa palavra no dicionário? Tá lá: é festa, é ritual, é encontro. O que a gente faz é jogo. Pouca gente entende. Não entende o ancestral, o que vem de milênios. Nego fala mal, fala muito mal. Não sabe do que fala. Eles não sabem. A gente sofre. Sofre nos ensaios, na dura rotina de decorar texto, de marcar cena, de preparar o corpo, de treinar a voz, de esquematizar o figurino, o cenário, a trilha sonora, a iluminação. A gente não sabe e vai atrás, aprende tudo isso, do zero. Do zero na conta do banco. A gente vai à luta, na raça. Nego não compreende. Diz que não é trabalho, manda a gente caçar o que fazer. Nego não vê, não sente, não entende. O que a gente faz é artesanato. É um trabalho manual, feito a muitas mãos, muitas, muitas mãos. E corações. E raciocínio, tudo é meticuloso, pensado pra dar certo. Nem sempre dá, mas a gente tenta, resiste, persiste, insiste e, se desiste, é porque fez de tudo. E tudo ainda é tão pouco que vai lá e faz de novo. A gente não é fácil. Nego vem e fala mal. Eles não sabem do que falam. Nego vem e fala bem. Massageia a alma. A gente ouve, vê e dá um abraço. Muito obrigado. Pensa que é fácil? Vem fazer melhor. A gente é fudido. Sofre dia e noite, enfrenta sol e chuva, atravessa a cidade, enfrenta o trânsito, deixa de comer, economiza dinheiro, vive de cachê, pede dinheiro emprestado, come na casa do amigo, aceita favor, deve favor, se diverte quando dá entrevista, aparece notinha no jornal, divulga foto no Facebook e cria evento. 1000 confirmam, 7 aparecem. Fudeu, tem que apresentar. Vai lá e manda a ver. A gente cumprimenta, nego aplaude, a gente agradece os patrocinadores. Patrocinadores quando tem. Agradece a mãe e os melhores amigos que foram nos ver. Não tem plateia pra fazer sessão, apresenta duas vezes e olhe lá. Filma tudo, inscreve no festival de teatro e viaja. Viaja muito, demais, registra tudo e vira notícia, sai na mídia local. Quando volta, é reconhecido. Mentira, tudo mundo continua sem saber que a gente existe. Se mata de escrever projeto pra edital. Escreve, reescreve, escreve de madrugada, pensamento flui melhor. É, não dá pra pagar agência pra escrever projeto. A gente escreve sozinho, faz clipping, curso de capacitação que grupo ganhador de edital vem dar quando circula na nossa cidade. Como é mesmo? Lembrei: contrapartida cultural. Circulação, residência, diversidade cultural da SECULT e Lei Rubem Braga. Myriam Muniz, Petrobrás e Eletrobrás. Esses últimos, só os picas. A gente faz, a gente anota, a gente tenta. Inscreve um, dois, cinco. Compete com nego da capital, nego de Rio-SP. Ganha nada. Não, peraí. Ganhou um. Menor valor, dá graças a Deus. Faz, ensaia, tenta, resiste, agradece, estreia, viaja, repete. Volta pra casa, cozinha, passa roupa, vê filme, lê um livro, viaja naquilo e se alimenta daquilo. Recebe e-mail, telefonema: "você pode fazer um teatro aqui pra mim?" Fazer um teatro... nego pensa que a gente é arquiteto, engenheiro. "Cachê é tanto." "Nossa, muito caro!" Engole sapo. Não tem grupo, faz monólogo, convida amigo pra dirigir. O ensaio é solitário, cinco meses falando sozinho, ensaiando sozinho, treinando sozinho, vai pra cena sozinho, joga pro público. Plateia de 5, 7, 20, 30 pessoas. A gente agradece. Mãe, amigo, família. Bate palma, chora, respira e anda, apresenta no festival, não passa em edital, compete com bicho cabeça, alimenta filho, sobrevive com emprego paralelo, acaba assalariado. Não faz o que gosta, vai ao teatro pra encontrar a liberdade. Se entrega, se joga, esquece do mundo. Nego de toda parte vem e faz de tudo com a gente. A gente faz de tudo pros outros, pra gente, pro que não tem nome, vai pra toda parte e quer mais. Não adianta: a gente segue em frente e agradece.



Agosto de 2014.

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