Há sempre algo para aprender.
De dia, aprendo a cultivar o tempo. De noite, aprendo a saborear os espaços. Quando criança, sempre tinha alguém para me guiar ao próximo passo. Lembro-me de coisas sem muita importância, que não me levam a gostar do que é direito ou esquerdo. São coisas que, quando penso nelas, me trazem, de alguma forma, um ensinamento. Um primo, com quem eu quase nunca conversava, um dia me ensinou a amarrar os tênis. Mais tarde, seus erros me ensinavam a não cometê-los. Na escola, aprendi as letras, os números, mas minha avó com sua imensa prateleira de livros me ensinava a admiração, o querer da sabedoria. Querer saber, querer um pouco mais. Minha avó me ensinou isso com sua vida.
Há sempre algo para aprender.
Sempre. Onde quer que eu esteja, há um aprendizado. Um algo a mais. Com o teatro, aprendi o respeito ao ofício. Aprendi o respeito. Apreendi o ofício. Com minha mãe, o que é o amor em todas as suas circunstâncias, ainda que elas sejam rotas ou disformes. Ainda que sejam, há o amor para ser ensinado. Amor de mãe. Amor e basta. Amor. Com o amor, aprendi a aprender. A respirar. A tocar naquilo que chamamos de relação tempo-espaço. A tocar minimamente e descobrir a imensidão, o tudo, o infinito.
Há sempre algo para aprender.
No Chile, descobri o teatro do outro. Oficinas e apresentações me levaram a usar o teatro como forma de comunicação com outra cultura. Na Colômbia, descobri a gostar de café. Na Itália, a sobreviver na solidão. Na França, a me impactar com uma construção. Em Portugal, a resistir em cima de um palco e perceber que o ofício se faz nas circunstâncias mais diversas. Em todas essas viagens para fora do país, aprendi a ter ideia da minha identidade. De que nada é fácil fora do seu círculo. Pensando bem, bastou eu sair de casa e ver que o lugar que me geriu é a base da minha criação e que estou bem no lugar onde estou. Onde estou é que é o meu lugar. Nos olhos da plateia aprendi a me emocionar. Com Milena, aprendi a ter uma irmã. Com Natália, a acreditar que adversidades também vem para o bem. Com Marcelo, o uísque. Com os pacientes do hospital, os olhos de ver. Olhos que aprendem a finitude do homem, que não somos, aqui, nada. Que somos, fortes, tudo. Fragmentar-se para se reconstruir. Com meu sangue, aprendi a viver todos os dias intensamente, sem amarras, sem fronteiras, sem esperar pelo porvir. O tempo é hoje e nele me faço existir.
Há sempre algo para aprender.
Novembro de 2014
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