Considerada
uma das cidades-berço da cultura popular nacional, Cachoeiro recebeu inúmeros
apelidos para fazer jus à sua fama de geradora de sucessos. Só que isso foi no
passado, hoje uma nova leva de artistas mostra que quem bebe das águas do
Itapemirim tem o sangue renovado pela poesia da cidade.
O nome é grande: Cachoeiro de
Itapemirim. Parece querer ostentar alguma coisa já na apresentação. A cidade está
localizada ao sul do Espírito Santo, um estado cujo âmbito cultural, hoje, não
é tão efervescente assim, comparado aos estados vizinhos – Rio, São Paulo,
Minas, Bahia. Tem casa colonial, prédio moderno, rio que
passa no meio da cidade – o Rio Itapemirim – tem que gente que gosta, gente que
odeia e tem até os bairristas. Esses não deixam a cidade passar desapercebida:
tomam seu café no Mourad’s e discutem política; não esquecem, nunca, que
respiram o ar do local onde nasceu Roberto Carlos, Rubem Braga, Jece Valadão,
Luz del Fuego e tantos outros. É uma cidade de gerações. A geração de ontem
desconhece o fato de que hoje se faz algo bom, excelente. A geração de hoje
sabe do passado através da escola. A geração de hoje faz. Faz arte, cultura e
exporta. Exporta muito. Leva música, teatro, literatura, cinema, artes visuais
para além das geografias e do calor típico cachoeirense. Leva o calor humano
para novos públicos que faz a identidade cultural de Cachoeiro ganhar sangue
novo, qualidades além do registro na experiência de se fazer arte. O projeto em
si apresenta uma fórmula nada autêntica: reunir todos os principais artistas
atuais de Cachoeiro, cada um em sua linguagem, para apresentar o que já fazem
cotidianamente. Entretanto, tudo isso junto, gratuito, para todos na cidade que
aprendeu ao longo dos anos a não dar valor à cultura. Seus hábitos são
ignorados, a arquitetura é demolida, não respeitando a memória. Árvores são
retiradas, placas pichadas. A música é só aquilo que se apresenta no parque de
exposições: megalomaníacos, pirotécnicos. O teatro é o que vem de fora, do
mundo dos famosos e o cinema é hollywoodiano. E dublado. Esses males não afetam
apenas Cachoeiro. São inconvenientes mundiais cuja gestão cultural vem
estudando como solucionar essa falta de hábitos culturais ao longo das últimas
décadas. A área da economia criativa é a mais recente ciência que viabiliza
novas formas de produção formação de público para as artes onde ganha-se
dinheiro com teatro, concertos, artesanatos que carregam em sua apresentação um
“algo a mais”. Assim, o diferente, algo que todos buscam hoje constantemente,
seja o atrativo principal do consumo. E, aqui, consome-se gastando dinheiro e
alimentando-se do intangível, de arte. É através de um olhar contemporâneo,
observando com atenção o que acontece hoje, agora, na cultura do município que
nasceu a primeira edição do projeto Cachoeiro Cult. Foram ações que aconteceram
do dia 14 de novembro a 13 de dezembro de 2014. É impossível não falar de
cultura capixaba sem abrimos um capítulo para Cachoeiro. Com movimentos artísticos
que existem, se produzem e mantém uma constância de criação, mas que não
tiveram ainda a oportunidade de se reunirem em um evento em comum na sua cidade
sede, a programação seguiu gratuita. É o primeiro evento de um novo movimento
cultural para Cachoeiro e para o Espírito Santo.
Dezembro de 2014
Nenhum comentário:
Postar um comentário