Cachoeiro de Itapemirim, 01 de agosto de 2015.
Amigos,
Vocês se lembram do ET de Varginha? Aquelas estatuas naquela pracinha onde tiramos fotos. Lembro-me daquele dia: tinha uma feira acontecendo com ilustrações de várias crianças, profissionais, dando sua versão para o tal alienígena famoso. A cidade ganhou aquela fama toda e a gente, que nem imaginava, estava lá. Foram 12 horas de carro. Só de ida. De volta, mais 12. Saímos de madrugada de Cachoeiro, paramos por algumas cidades, comemos, vimos formigueiros gigantes, cantamos Tom Jobim, dormimos e fotografamos uns aos outros naquela situação. Pai de Milena dirigia, a mãe dela guiava e puxava assunto. Estávamos on the road total.
Era 2009 e eu havia visto na internet um edital de um festival de poesia falada. Achei aquilo muito bacana, porque eu queria há um bom tempo viajar, participar de uma experiência assim com o teatro. Falei com Milena que topou de imediato criar um poema para a inscrição. Ela me trouxe a criação e logo pensei nos signos: Juninho na hora para criar a trilha e executá-la ao vivo. No violino, aqueles versos ficariam ainda mais lindos. “Nunca me esquecerei daquele acontecimento na vida de minhas retinas ainda frescas.” E dá-lhe Juninho... Ensaiamos e lá fomos nós. Chegamos em cima da hora para a apresentação. Milena e família na plateia, Juninho e eu na coxia. Apresentamos e pronto. Foi bom, mesmo não levando prêmio algum. Foi bom, porque tivemos a repercussão de algo que criamos sem grandes pretensões e que acabou tendo elogios e críticas positivas de muitas pessoas, todos artistas que nunca havíamos visto. Era tudo novo, estranho, saboroso. Era mágico e enriquecedor, lembram? Nos sentimos. Tivemos, ali, uma resposta ao nosso trabalho, feito por jovens com pouca experiência e muita vontade de fazer, sem saber exatamente o que, para que, para quem, onde.
Foi bom porque copiamos a ideia. Copiamos, porque ideia boa se copia mesmo, do nosso jeito. Em 2010 surgiu a ideia de fazer um festival de poesia falada em Cachoeiro. Como a terra de Rubem e Newton não tem um evento assim? Poucos dias depois, na primeira bienal Rubem Braga, teve o Festival de Crônicas Interpretadas. Eu participei com Alessandra Biato e ficamos entre os cinco classificados. Dava certo, era bacana, movimentava todo mundo, tinha crescimento nos sentidos, na razão de entender o texto como além das letras. A palavra como gesto, dança, música, emoção. Newton Braga, criador de poesias, criativo dos dias cachoeirenses, o artista de ofício, esse homem nos inspira na criação desse evento. Por isso, Festival Newton Braga de Poesia Falada. Tentamos realizá-lo, mudamos de cidade, de país, crescemos, amadurecemos, realizamos outros sonhos, planos, tomamos dimensão da realidade e agora, em 2015, vamos conseguir realizar a primeira edição do festival. Milena, você não está aqui agora. Juninho também não. Ela segue carreira no Chile, ele no seminário, caminhos do sacerdócio. Eu estou aqui, criando, pensando e capitaneando essa criação que surgiu da vontade desses três jovens sem medo do futuro, a fim de enfrentar 24 horas de carro para defender a poesia. Nada mais nos importava, apenas a poesia. E essa vontade que nos move e que faz o festival acontecer agora. Simples. E com vocês, comigo.
Com
carinho,
Luiz
Modernista
Milena
Paixão
Tinha a incerteza no meio do caminho.
No meio do caminho, a
incerteza.
E, mais pro lado, a pedra.
Tinha a pedra.
Eu vi a incerteza e franzi o
nariz de pena:
A incerteza era um bichinho.
E feio, como era feio, meu
deus.
E roía, como roía, com uns
incisivos
Que queriam crescer pra sempre
Pra além do seu tamanho
E ainda além.
Enquanto fiquei parada
olhando, a incerteza roeu tudo o que podia:
Graveto, plástico, guimba,
cacos
Até a pedra.
Ainda não satisfeita, ela
chegou pra mim
E deu de roer meus sapatos
Roeu até sangrar um dedão.
Mandei-lhe a pedra no
traseiro.
Tinha a pedra no meio do caminho.
E no meio do caminho tinha a
incerteza.
Nunca me esquecerei desse
acontecimento
Na vida de minhas retinas
ainda frescas.

Nenhum comentário:
Postar um comentário