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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Meu encontro com Cecília

Cheguei mais cedo ao Prédio La Rural onde acontecia a Feira do Livro de Buenos Aires. Entrando na Sala Domingo Faustino Sarmiento, me deparo com uma senhora sentada à mesa, junto a uma das organizadoras do evento que eu participava. As duas, em espanhol, colocavam um DVD no notebook e tentavam abrir arquivos em formato de vídeos. Nenhum abria. Sentei-me a uma cadeira da pequena sala e observei, tentando entender o problema para ajudar em algo. Na verdade, ajudar seria um bom motivo para iniciar uma conversa com aquela senhora que me fez atravessar meia capital portenha para vê-la e ouvi-la. Cecília Boal, viúva de um dos maiores teatrólogos do mundo, estava ali para falar sobre o trabalho do marido que nos deixou em maio de 2009. O Teatro do Oprimido fez o mundo enxergar o teatro como um meio de discussão política e social, onde absolutamente todos podem fazer a arte da interpretação acontecer. Augusto Boal, esse gênio, nos deixou um eixo para o teatro e para a sociedade. E Cecília nos veio representá-lo. Os filmes do DVD não abriam de forma alguma. Eu tentei, com meu singelo espanhol, ajudar. “Tente abrir no arquivo VCL, ele abre tudo, talvez dê certo.”, disse eu. Meu espanhol de puro sotaque brasileiro chamou a atenção de Cecília. “Você é brasileiro, não?” Respondo que sim com um esboço tímido de sorriso no rosto. Faço propaganda do meu estado anunciando a naturalidade capixaba e que por aqui faço teatro, por isso estava em terras argentinas participando das IV Jornadas Nacionais de Investigação e Crítica Teatral com um estudo sobre a linguagem da performance. “Mas o que é performance? Me diz, porque estou muito desatualizada. Quem trabalha com isso hoje no Brasil?”. Ela me provoca, tirando de mim explicações que rapidamente saem da minha mente e me vem à voz até que o presidente da Associação Argentina de Investigação e Crítica Teatral chega para dar início aos trabalhos. A essa altura, já tinham conseguido acessar a internet e baixar o vídeo que Cecília queria passar. Carlos Fos, o presidente, fala um pouco do trabalho de Cecília em tentar manter o gigante arquivo de Boal e suas pesquisas do Teatro do Oprimido. O acervo, que recentemente foi ameaçado de ser levado para os Estados Unidos, permanece no Brasil sob a proteção da UFRJ e uma competente equipe que cataloga e organiza todos os materiais do teatrólogo brasileiro. O trabalho de formiga começa a dar resultados com o apoio do Governo Federal e de artistas que não enxergam a hipótese de ver nossa história em mãos estrangeiras. Estou ali muito estrangeiro, sentado, ouvindo os causos do Teatro Arena, os depoimentos em vídeo de Milton Gonçalves, além de João do Valle e Chico Buarque cantando Carcará. Volto para um tempo que não vivi, mas que todos os dias acendem em nossa cara na desigualdade de nosso povo, na injustiça de nossos representantes nos três poderes, nas vielas de nossa cidade onde crianças passam fome e o mau agouro prevalece. Cecília fez daquelas duas horas um encontro com o teatro latino-americano, rico de conteúdo, criatividade e orgulho em termos um teatro tão bem pensado, que se desdobra pelo mundo e que se faz em presença. Eu me despeço de Cecília que, com uma fina elegância, recebe meu beijo com total receptividade. Somos do mesmo mundo. Somos do teatro. Salve Boal!

Maio de 2012.



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