Pai, mãe e filho estão sentados à mesa. Comem
a sobremesa. É domingo.
Pai – O sal.
A mulher
passa o saleiro ao marido, sem dizer nada. O pai coloca muito sal na sobremesa.
Mãe e filho comem em silêncio.
Filho – O sal.
O pai não se
move. A mãe pega o saleiro perto do pai e passa para o filho que coloca muito
sal na sobremesa.
Silêncio.
Mãe – Manjar de coco com leite condensado.
(longo silêncio). Essa receita, minha avó fazia quando eu era criança e íamos a
casa dela nas minhas férias. Íamos eu, meu pai, minha mãe, Fernando, Joana e
Adelaide. Papai sacolejava a Chevette de Vitória até Cachoeiro cantando músicas
do Roberto Carlos e a gente cantava junto, gritando para todo mundo que
passasse na estrada visse que a gente estava de férias, louco pra chegar logo.
Ai a gente parava no meio da estrada e comprava uns cocos que uns senhores
vendiam na BR, já pensando no manjar que vovó ia fazer. Quando a gente chegava,
empurrava o portão de ferro que já estava meio aberto e rolava num quintal de
grama verde bem vivo, por causa das recentes chuvas que haviam caído por lá e
pelo sol que sempre reinava majestoso naquele final de ano. O sol de dezembro!
Ai, quantas saudades! Mamãe, a essa altura já tinha levado os cocos para a
cozinha, ajudando vovó no fogão e ralando cada pedacinho. Papai subia com vovô
para o terraço e ficavam por lá, conversando. Até hoje num sei o que eles
conversavam. Quando dava a hora do almoço, a gente gritava para eles descerem,
vovó ficava irritadíssima, porque queria que todo mundo comesse assim que a
comida esteve pronta, à mesa. Eu e meus irmãos entravamos correndo a sala e
sentávamos àquela mesa de madeira de carvalho, preta, com aquelas cadeiras que
mais pareciam tronos, todos sujos de terra da grama e dos pelos dos cachorros
que vovó criava e não paravam se pular em cima da gente, de tanta alegria. Bob,
Toby, Rex, Bug... Mamãe ralhava com a gente, mas a gente tinha tanta fome que o
máximo que a gente fazia era lavar as mãos. Comíamos tanto, era tanto assunto
para colocar em dia. Vovô morria de rir das piadas de papai que não se
aguentava e fazia xixi nas calças! Era tão engraçado ver vovô todo molhado
correndo para o banheiro pra limpar, vovó morria de vergonha, mas ria tanto que
soltava peidinhos de felicidade! Adelaide, Joana, Fernando e eu riamos tanto,
tanto...
Todos, à
mesa, permanecem em silêncio.
A mãe para
de rir aos poucos.
Setembro de 2012.
Nenhum comentário:
Postar um comentário