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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Salto

Pai, mãe e filho estão sentados à mesa. Comem a sobremesa. É domingo.

Pai – O sal.

A mulher passa o saleiro ao marido, sem dizer nada. O pai coloca muito sal na sobremesa. Mãe e filho comem em silêncio.

Filho – O sal.

O pai não se move. A mãe pega o saleiro perto do pai e passa para o filho que coloca muito sal na sobremesa.
Silêncio.

Mãe – Manjar de coco com leite condensado. (longo silêncio). Essa receita, minha avó fazia quando eu era criança e íamos a casa dela nas minhas férias. Íamos eu, meu pai, minha mãe, Fernando, Joana e Adelaide. Papai sacolejava a Chevette de Vitória até Cachoeiro cantando músicas do Roberto Carlos e a gente cantava junto, gritando para todo mundo que passasse na estrada visse que a gente estava de férias, louco pra chegar logo. Ai a gente parava no meio da estrada e comprava uns cocos que uns senhores vendiam na BR, já pensando no manjar que vovó ia fazer. Quando a gente chegava, empurrava o portão de ferro que já estava meio aberto e rolava num quintal de grama verde bem vivo, por causa das recentes chuvas que haviam caído por lá e pelo sol que sempre reinava majestoso naquele final de ano. O sol de dezembro! Ai, quantas saudades! Mamãe, a essa altura já tinha levado os cocos para a cozinha, ajudando vovó no fogão e ralando cada pedacinho. Papai subia com vovô para o terraço e ficavam por lá, conversando. Até hoje num sei o que eles conversavam. Quando dava a hora do almoço, a gente gritava para eles descerem, vovó ficava irritadíssima, porque queria que todo mundo comesse assim que a comida esteve pronta, à mesa. Eu e meus irmãos entravamos correndo a sala e sentávamos àquela mesa de madeira de carvalho, preta, com aquelas cadeiras que mais pareciam tronos, todos sujos de terra da grama e dos pelos dos cachorros que vovó criava e não paravam se pular em cima da gente, de tanta alegria. Bob, Toby, Rex, Bug... Mamãe ralhava com a gente, mas a gente tinha tanta fome que o máximo que a gente fazia era lavar as mãos. Comíamos tanto, era tanto assunto para colocar em dia. Vovô morria de rir das piadas de papai que não se aguentava e fazia xixi nas calças! Era tão engraçado ver vovô todo molhado correndo para o banheiro pra limpar, vovó morria de vergonha, mas ria tanto que soltava peidinhos de felicidade! Adelaide, Joana, Fernando e eu riamos tanto, tanto...
Todos, à mesa, permanecem em silêncio.

A mãe para de rir aos poucos.

A mãe pega o saleiro e deposita uma boa quantidade de sal ao manjar que está comendo

Setembro de 2012.

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