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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

“A Culpa” de nós todos

Franz Kafka não foi um homem qualquer. Teve uma vida inteira cheia de atribulações amorosas e familiares. No trabalho, era um exímio profissional, com grandes habilidades para a advocacia e o trabalho em uma seguradora, onde permaneceu por longos anos. Com as mulheres, já não se pode dizer o mesmo: enamorou-se por muitas; noivou e desnoivou da mesma mulher duas vezes através de cartas onde sua comunicação se fazia mais etérea e seus instintos eram melhores exprimidos em pedidos, descrições de características e sentimentalismos próprios, divagações e descrições de seus percalços cotidianos como os que envolviam sua família, em especial seu pai, Herman Kafka, em quem encontrava o significado de pânico e a referência de poder ao mesmo tempo. Desde a infância, Franz via em sua figura paterna os pontos mais elementares para uma safra inteira de medo, frieza e estranhamento. Era nessa base – e, obviamente, nas muitas outras em que experimentara, ao passar dos dias, o temor dos tempos (mulheres e doenças, por exemplo) – que suas criações artísticas germinavam sob o signo da literatura. 

“Carta ao Pai” é uma obra especial. Primeiro, por não ser ficcional. É o próprio Kafka que expõe suas relações com o pai em páginas e mais páginas, deixando para a eternidade a verdade de seus sentimentos. Segundo que, por não ser ficcional, os fatos verídicos vão se formatando na cabeça do leitor que dá às palavras e histórias seus sentidos próprios, de acordo com seu repertório emotivo. Ou seja, cada leitor tem a sua perspectiva ao ter ideia das confissões kafkianas. E, finalmente, porque Kafka é mestre em expressar o verdadeiro significado da literatura: suas palavras evocam os sentidos. “No mundo de Kafka, a história é o que é: a realidade como é retratada.” (BEGLEY, 2010:178). Em “Carta ao Pai”, sem personagens ficcionais, sem ideias mirabolantes, sem mentira, a citação é mais que verdadeira. Foi por isso que escolhi a obra para levá-la ao palco. O espetáculo é A CULPA, que estreou nos dias 23 e 24 de novembro de 2012 em Cachoeiro. O discurso e a presença kafkiana sob a interpretação de Luiz Carlos Cardoso, direção de Carlos Ola e coreografias de Jeremias Schaydegger levam o teatro cachoeirense para novos ares. Afinal, A Culpa sempre é de todos.




Novembro de 2012.

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