Deixo claro que não menosprezo a revista, muito menos os profissionais incríveis que nela trabalham. Não, de forma alguma. O erro é meu. Não tenho o que escrever! Vivo com a cabeça nas tábuas de madeira e nos pregos dos palcos e por lá habito e crio minhas raízes. Enquanto não sento quadrado em frente a um computador com o objetivo de escrever um texto redondo sobre teatro para a Cachoeiro Cult, todos os pensamentos passam pela minha cabeça. Observo pessoas, seus comportamentos à beira da rua e imagino suas intimidades e seus segredos: o que escondem, o que fazem nos seus quartos, nas suas famílias, viajo nas perturbações alheias e me encho de vazio. É tudo muito... muito... intangível, de importância minha. Machado de Assis e Baudelaire, por exemplo, ocupavam o posto de flâneur com profissionalismo. Flâneur, do francês, vagabundo, preguiçoso, mas que vem do verbo flâner, de “para passear”. Baudelaire que inventou essa novo significado de que é flâneur quem anda pela cidade para experimentá-la. Ele, Assis e tantos outros flanavam como ninguém e levavam com proeza incomparável seus registros oculares para as palavras. Suas obras? Sucesso indubitável, irrefragável! E eu? Não tenho espaço para isso, nem cabeça, nem vocabulário. Se meu dicionário pessoal beira às 50 palavras, bato palmas para mim. Flanar? Quero tempo para isso. E paciência. Sou do século 21, não conheci as barreiras da ansiedade, apesar de idolatrar o silêncio. Chego aos limites da preguiça com certa frequência mensal.
Nesse mês de julho, realizei dois sonhos. Fui a Europa e me apresentei lá. Fui a Portugal, em duas cidades: Porto e Vila Nova de Gaia. Que lugar lindo! Que pessoas maravilhosas conheci por lá. Fado, bacalhau, o rio Douro, as casinhas pequenas e coladas umas as outras, cheias de azulejo e igrejas no virar das esquinas. Por lá, eu andei. Como andei. Subi e desci ladeiras, busquei as curiosidades da cidade, contemplei as senhoras e senhores que passam as manhas gritando absurdamente de suas janelas, talvez com a preguiça de não quiserem sair às portas, talvez pela tradição daquele povo. O vinho do porto que em três cálices me provocaram ardente ressaca, o som do violão, o português-idioma cujo sotaque me difere de espaço geográfico, de 513 anos de diferenças. Olhava. Olhava, olhava e olhava. E armazenava tudo na cabeça, tentando fazer com que nada se desmanchasse. Eu e meu teatro. Eu e minha presença. Até onde se pode chegar? O que eu sou capaz de fazer com esse ofício que está dentro de mim e ora ou outra me provoca uma falta total de perspectivas e uma inadimplência total no avançado dos dias? Enquanto a resposta não vem, continuo escrevendo nada para a Cachoeiro Cult.
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