Esses tempos por Santiago me tem feito passar por certas
experiências interessantes tonalidades. Recebi a ligação de uma amiga
brasileira que está a trabalho por aqui. Ela queria marcar um encontro, afinal
fazia um ano que não nos víamos. É hora de colocar a conversa em dia, matar as
saudades. “Te encontro em vinte minutos, em frente a Estação Bellas Artes,
ok?”. Concordei plenamente e lá fui eu para o lugar combinado. Alguns minutos
depois, ela me liga de novo, dizendo que iria se atrasar. Uma hora de espera.
Esse tempo, de completa vadiagem, me impôs o papel de flâneur. Fiquei por ali, observando as pessoas que passam, a
arquitetura dos prédios, os acontecimentos mais banais e cotidianos.
Essa estação de metrô está em um local caracterizado pela
gente de gosto apurado, é o pessoalzinho cheio de não-me-toques daqui. Casas
chiques, apartamentos decorados, obras de arte, livrarias, cafés e
nhem-nhem-nhens que às vezes admiramos, às vezes nos enche a cabeça. No sobe e
desce das escadas do metrô, entram e saem meninas novas, pequenas da estatura
típica chilena, com cabelos amarados ou somente virados para esquerda ou para a
direita (sempre para só um dos lados). Meias-calças azuis, tênis Nike laranjas
e espartilhos negros dão o tom do figurino. O cigarro acesso à mão confirma o
ar de aparente independência. Toda essa visagem se repete em um grupo de
adolescentes, já aparentando umas idades a mais, que cruzam a Calle Monjitas.
No Bar Suburbia, sentam-se um trio de gays que sorriem e depositam para dentro
do outro a conversa do dia. Sinto no ar uma expressão forte, quase suprema, de
uma geração que necessita se expressar. O Chile passou anos de uma ditatura
rígida, dilacerante, explosão de pólvora, porta rompida, foda, que entregou aos
pais desses jovens que transitam diante de mim um novo país, mais fechado e
resistente. A realidade agora é outra. A cor, o sol, e tudo mais, aparece todos
os dias, ainda que os tempos negros, cinzas, de silêncios pinochetianos estejam
nas sombras. O grito preso na garganta está solto nos cabelos das meninas
pequenas, das virgens que querem dar agora, do homem cujo corpo se perde em
tatuagens e piercings, no desconcerto
dos prédios que teimam em estar limpos, retos e estruturados, pero caem na fissura daquele terremoto
de 2010. O organizado teima em estar organizado. Parece que se não estiver
assim, tudo será pior. “Não ultrapasse a linha amarela”, “vá pela via
indicada”, “não se pode andar de mãos dadas por essa rua”... Um asterisco:
estou morando com minha amiga de Cachoeiro, Milena Paixão. Converso com ela
sobre essa minhas observações e ela concorda. Diz mais: é uma geração de jovens
que mostram uma característica comum de grandes capitais, a de querer se
manifestar ou aparecer em cidade grande, onde tudo é muito e o muito apaga o
pouco. Esse pouco que teima em ser muito...
Minha amiga chega. Vamos ao bar, bebemos uma cerveja Escudo.
Garrafa de um litro logo. Respiro a brasilidade e jogamos nosso papo fora.
Foto de Luan Volpato
Março de 2013.
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