O F F C L I P P I N G

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

“Una cerveza Escudo, por favor.”

Esses tempos por Santiago me tem feito passar por certas experiências interessantes tonalidades. Recebi a ligação de uma amiga brasileira que está a trabalho por aqui. Ela queria marcar um encontro, afinal fazia um ano que não nos víamos. É hora de colocar a conversa em dia, matar as saudades. “Te encontro em vinte minutos, em frente a Estação Bellas Artes, ok?”. Concordei plenamente e lá fui eu para o lugar combinado. Alguns minutos depois, ela me liga de novo, dizendo que iria se atrasar. Uma hora de espera. Esse tempo, de completa vadiagem, me impôs o papel de flâneur. Fiquei por ali, observando as pessoas que passam, a arquitetura dos prédios, os acontecimentos mais banais e cotidianos.

Essa estação de metrô está em um local caracterizado pela gente de gosto apurado, é o pessoalzinho cheio de não-me-toques daqui. Casas chiques, apartamentos decorados, obras de arte, livrarias, cafés e nhem-nhem-nhens que às vezes admiramos, às vezes nos enche a cabeça. No sobe e desce das escadas do metrô, entram e saem meninas novas, pequenas da estatura típica chilena, com cabelos amarados ou somente virados para esquerda ou para a direita (sempre para só um dos lados). Meias-calças azuis, tênis Nike laranjas e espartilhos negros dão o tom do figurino. O cigarro acesso à mão confirma o ar de aparente independência. Toda essa visagem se repete em um grupo de adolescentes, já aparentando umas idades a mais, que cruzam a Calle Monjitas. No Bar Suburbia, sentam-se um trio de gays que sorriem e depositam para dentro do outro a conversa do dia. Sinto no ar uma expressão forte, quase suprema, de uma geração que necessita se expressar. O Chile passou anos de uma ditatura rígida, dilacerante, explosão de pólvora, porta rompida, foda, que entregou aos pais desses jovens que transitam diante de mim um novo país, mais fechado e resistente. A realidade agora é outra. A cor, o sol, e tudo mais, aparece todos os dias, ainda que os tempos negros, cinzas, de silêncios pinochetianos estejam nas sombras. O grito preso na garganta está solto nos cabelos das meninas pequenas, das virgens que querem dar agora, do homem cujo corpo se perde em tatuagens e piercings, no desconcerto dos prédios que teimam em estar limpos, retos e estruturados, pero caem na fissura daquele terremoto de 2010. O organizado teima em estar organizado. Parece que se não estiver assim, tudo será pior. “Não ultrapasse a linha amarela”, “vá pela via indicada”, “não se pode andar de mãos dadas por essa rua”... Um asterisco: estou morando com minha amiga de Cachoeiro, Milena Paixão. Converso com ela sobre essa minhas observações e ela concorda. Diz mais: é uma geração de jovens que mostram uma característica comum de grandes capitais, a de querer se manifestar ou aparecer em cidade grande, onde tudo é muito e o muito apaga o pouco. Esse pouco que teima em ser muito...


Minha amiga chega. Vamos ao bar, bebemos uma cerveja Escudo. Garrafa de um litro logo. Respiro a brasilidade e jogamos nosso papo fora. 

Foto de Luan Volpato


Março de 2013.

Nenhum comentário:

Postar um comentário