O F F C L I P P I N G

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Para Milena e Juninho

Cachoeiro de Itapemirim, 01 de agosto de 2015.

Amigos,

Vocês se lembram do ET de Varginha? Aquelas estatuas naquela pracinha onde tiramos fotos. Lembro-me daquele dia: tinha uma feira acontecendo com ilustrações de várias crianças, profissionais, dando sua versão para o tal alienígena famoso. A cidade ganhou aquela fama toda e a gente, que nem imaginava, estava lá. Foram 12 horas de carro. Só de ida. De volta, mais 12. Saímos de madrugada de Cachoeiro, paramos por algumas cidades, comemos, vimos formigueiros gigantes, cantamos Tom Jobim, dormimos e fotografamos uns aos outros naquela situação. Pai de Milena dirigia, a mãe dela guiava e puxava assunto. Estávamos on the road total. 

Era 2009 e eu havia visto na internet um edital de um festival de poesia falada. Achei aquilo muito bacana, porque eu queria há um bom tempo viajar, participar de uma experiência assim com o teatro. Falei com Milena que topou de imediato criar um poema para a inscrição. Ela me trouxe a criação e logo pensei nos signos: Juninho na hora para criar a trilha e executá-la ao vivo. No violino, aqueles versos ficariam ainda mais lindos. “Nunca me esquecerei daquele acontecimento na vida de minhas retinas ainda frescas.” E dá-lhe Juninho... Ensaiamos e lá fomos nós. Chegamos em cima da hora para a apresentação. Milena e família na plateia, Juninho e eu na coxia. Apresentamos e pronto. Foi bom, mesmo não levando prêmio algum. Foi bom, porque tivemos a repercussão de algo que criamos sem grandes pretensões e que acabou tendo elogios e críticas positivas de muitas pessoas, todos artistas que nunca havíamos visto. Era tudo novo, estranho, saboroso. Era mágico e enriquecedor, lembram? Nos sentimos. Tivemos, ali, uma resposta ao nosso trabalho, feito por jovens com pouca experiência e muita vontade de fazer, sem saber exatamente o que, para que, para quem, onde.

Foi bom porque copiamos a ideia. Copiamos, porque ideia boa se copia mesmo, do nosso jeito. Em 2010 surgiu a ideia de fazer um festival de poesia falada em Cachoeiro. Como a terra de Rubem e Newton não tem um evento assim? Poucos dias depois, na primeira bienal Rubem Braga, teve o Festival de Crônicas Interpretadas. Eu participei com Alessandra Biato e ficamos entre os cinco classificados. Dava certo, era bacana, movimentava todo mundo, tinha crescimento nos sentidos, na razão de entender o texto como além das letras. A palavra como gesto, dança, música, emoção. Newton Braga, criador de poesias, criativo dos dias cachoeirenses, o artista de ofício, esse homem nos inspira na criação desse evento. Por isso, Festival Newton Braga de Poesia Falada. Tentamos realizá-lo, mudamos de cidade, de país, crescemos, amadurecemos, realizamos outros sonhos, planos, tomamos dimensão da realidade e agora, em 2015, vamos conseguir realizar a primeira edição do festival. Milena, você não está aqui agora. Juninho também não. Ela segue carreira no Chile, ele no seminário, caminhos do sacerdócio. Eu estou aqui, criando, pensando e capitaneando essa criação que surgiu da vontade desses três jovens sem medo do futuro, a fim de enfrentar 24 horas de carro para defender a poesia. Nada mais nos importava, apenas a poesia. E essa vontade que nos move e que faz o festival acontecer agora. Simples. E com vocês, comigo.

Com carinho,
Luiz



Modernista
Milena Paixão


Tinha a incerteza no meio do caminho.
No meio do caminho, a incerteza.
E, mais pro lado, a pedra.
Tinha a pedra.

Eu vi a incerteza e franzi o nariz de pena:
A incerteza era um bichinho.
E feio, como era feio, meu deus.
E roía, como roía, com uns incisivos
Que queriam crescer pra sempre
Pra além do seu tamanho
E ainda além.

Enquanto fiquei parada olhando, a incerteza roeu tudo o que podia:
Graveto, plástico, guimba, cacos
Até a pedra.
Ainda não satisfeita, ela chegou pra mim
E deu de roer meus sapatos
Roeu até sangrar um dedão.

Mandei-lhe a pedra no traseiro.

Tinha a pedra no meio do caminho.
E no meio do caminho tinha a incerteza.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
Na vida de minhas retinas ainda frescas.


Cachoeiro Cult: arte e cultura na capital secreta do mundo

Considerada uma das cidades-berço da cultura popular nacional, Cachoeiro recebeu inúmeros apelidos para fazer jus à sua fama de geradora de sucessos. Só que isso foi no passado, hoje uma nova leva de artistas mostra que quem bebe das águas do Itapemirim tem o sangue renovado pela poesia da cidade.

O nome é grande: Cachoeiro de Itapemirim. Parece querer ostentar alguma coisa já na apresentação. A cidade está localizada ao sul do Espírito Santo, um estado cujo âmbito cultural, hoje, não é tão efervescente assim, comparado aos estados vizinhos – Rio, São Paulo, Minas, Bahia. Tem casa colonial, prédio moderno, rio que passa no meio da cidade – o Rio Itapemirim – tem que gente que gosta, gente que odeia e tem até os bairristas. Esses não deixam a cidade passar desapercebida: tomam seu café no Mourad’s e discutem política; não esquecem, nunca, que respiram o ar do local onde nasceu Roberto Carlos, Rubem Braga, Jece Valadão, Luz del Fuego e tantos outros. É uma cidade de gerações. A geração de ontem desconhece o fato de que hoje se faz algo bom, excelente. A geração de hoje sabe do passado através da escola. A geração de hoje faz. Faz arte, cultura e exporta. Exporta muito. Leva música, teatro, literatura, cinema, artes visuais para além das geografias e do calor típico cachoeirense. Leva o calor humano para novos públicos que faz a identidade cultural de Cachoeiro ganhar sangue novo, qualidades além do registro na experiência de se fazer arte. O projeto em si apresenta uma fórmula nada autêntica: reunir todos os principais artistas atuais de Cachoeiro, cada um em sua linguagem, para apresentar o que já fazem cotidianamente. Entretanto, tudo isso junto, gratuito, para todos na cidade que aprendeu ao longo dos anos a não dar valor à cultura. Seus hábitos são ignorados, a arquitetura é demolida, não respeitando a memória. Árvores são retiradas, placas pichadas. A música é só aquilo que se apresenta no parque de exposições: megalomaníacos, pirotécnicos. O teatro é o que vem de fora, do mundo dos famosos e o cinema é hollywoodiano. E dublado. Esses males não afetam apenas Cachoeiro. São inconvenientes mundiais cuja gestão cultural vem estudando como solucionar essa falta de hábitos culturais ao longo das últimas décadas. A área da economia criativa é a mais recente ciência que viabiliza novas formas de produção formação de público para as artes onde ganha-se dinheiro com teatro, concertos, artesanatos que carregam em sua apresentação um “algo a mais”. Assim, o diferente, algo que todos buscam hoje constantemente, seja o atrativo principal do consumo. E, aqui, consome-se gastando dinheiro e alimentando-se do intangível, de arte. É através de um olhar contemporâneo, observando com atenção o que acontece hoje, agora, na cultura do município que nasceu a primeira edição do projeto Cachoeiro Cult. Foram ações que aconteceram do dia 14 de novembro a 13 de dezembro de 2014. É impossível não falar de cultura capixaba sem abrimos um capítulo para Cachoeiro. Com movimentos artísticos que existem, se produzem e mantém uma constância de criação, mas que não tiveram ainda a oportunidade de se reunirem em um evento em comum na sua cidade sede, a programação seguiu gratuita. É o primeiro evento de um novo movimento cultural para Cachoeiro e para o Espírito Santo.



Dezembro de 2014
Há sempre algo para aprender.

De dia, aprendo a cultivar o tempo. De noite, aprendo a saborear os espaços. Quando criança, sempre tinha alguém para me guiar ao próximo passo. Lembro-me de coisas sem muita importância, que não me levam a gostar do que é direito ou esquerdo. São coisas que, quando penso nelas, me trazem, de alguma forma, um ensinamento. Um primo, com quem eu quase nunca conversava, um dia me ensinou a amarrar os tênis. Mais tarde, seus erros me ensinavam a não cometê-los. Na escola, aprendi as letras, os números, mas minha avó com sua imensa prateleira de livros me ensinava a admiração, o querer da sabedoria. Querer saber, querer um pouco mais. Minha avó me ensinou isso com sua vida.

Há sempre algo para aprender.

Sempre. Onde quer que eu esteja, há um aprendizado. Um algo a mais. Com o teatro, aprendi o respeito ao ofício. Aprendi o respeito. Apreendi o ofício. Com minha mãe, o que é o amor em todas as suas circunstâncias, ainda que elas sejam rotas ou disformes. Ainda que sejam, há o amor para ser ensinado. Amor de mãe. Amor e basta. Amor. Com o amor, aprendi a aprender. A respirar. A tocar naquilo que chamamos de relação tempo-espaço. A tocar minimamente e descobrir a imensidão, o tudo, o infinito.

Há sempre algo para aprender.

No Chile, descobri o teatro do outro. Oficinas e apresentações me levaram a usar o teatro como forma de comunicação com outra cultura. Na Colômbia, descobri a gostar de café. Na Itália, a sobreviver na solidão. Na França, a me impactar com uma construção. Em Portugal, a resistir em cima de um palco e perceber que o ofício se faz nas circunstâncias mais diversas. Em todas essas viagens para fora do país, aprendi a ter ideia da minha identidade. De que nada é fácil fora do seu círculo. Pensando bem, bastou eu sair de casa e ver que o lugar que me geriu é a base da minha criação e que estou bem no lugar onde estou. Onde estou é que é o meu lugar. Nos olhos da plateia aprendi a me emocionar. Com Milena, aprendi a ter uma irmã. Com Natália, a acreditar que adversidades também vem para o bem. Com Marcelo, o uísque. Com os pacientes do hospital, os olhos de ver. Olhos que aprendem a finitude do homem, que não somos, aqui, nada. Que somos, fortes, tudo. Fragmentar-se para se reconstruir. Com meu sangue, aprendi a viver todos os dias intensamente, sem amarras, sem fronteiras, sem esperar pelo porvir. O tempo é hoje e nele me faço existir.

Há sempre algo para aprender.

Novembro de 2014

Do Ofício

A gente é ferrado, a gente se dá mal. Quando se dá bem, é celebração. O que a gente faz é celebração. Já viu essa palavra no dicionário? Tá lá: é festa, é ritual, é encontro. O que a gente faz é jogo. Pouca gente entende. Não entende o ancestral, o que vem de milênios. Nego fala mal, fala muito mal. Não sabe do que fala. Eles não sabem. A gente sofre. Sofre nos ensaios, na dura rotina de decorar texto, de marcar cena, de preparar o corpo, de treinar a voz, de esquematizar o figurino, o cenário, a trilha sonora, a iluminação. A gente não sabe e vai atrás, aprende tudo isso, do zero. Do zero na conta do banco. A gente vai à luta, na raça. Nego não compreende. Diz que não é trabalho, manda a gente caçar o que fazer. Nego não vê, não sente, não entende. O que a gente faz é artesanato. É um trabalho manual, feito a muitas mãos, muitas, muitas mãos. E corações. E raciocínio, tudo é meticuloso, pensado pra dar certo. Nem sempre dá, mas a gente tenta, resiste, persiste, insiste e, se desiste, é porque fez de tudo. E tudo ainda é tão pouco que vai lá e faz de novo. A gente não é fácil. Nego vem e fala mal. Eles não sabem do que falam. Nego vem e fala bem. Massageia a alma. A gente ouve, vê e dá um abraço. Muito obrigado. Pensa que é fácil? Vem fazer melhor. A gente é fudido. Sofre dia e noite, enfrenta sol e chuva, atravessa a cidade, enfrenta o trânsito, deixa de comer, economiza dinheiro, vive de cachê, pede dinheiro emprestado, come na casa do amigo, aceita favor, deve favor, se diverte quando dá entrevista, aparece notinha no jornal, divulga foto no Facebook e cria evento. 1000 confirmam, 7 aparecem. Fudeu, tem que apresentar. Vai lá e manda a ver. A gente cumprimenta, nego aplaude, a gente agradece os patrocinadores. Patrocinadores quando tem. Agradece a mãe e os melhores amigos que foram nos ver. Não tem plateia pra fazer sessão, apresenta duas vezes e olhe lá. Filma tudo, inscreve no festival de teatro e viaja. Viaja muito, demais, registra tudo e vira notícia, sai na mídia local. Quando volta, é reconhecido. Mentira, tudo mundo continua sem saber que a gente existe. Se mata de escrever projeto pra edital. Escreve, reescreve, escreve de madrugada, pensamento flui melhor. É, não dá pra pagar agência pra escrever projeto. A gente escreve sozinho, faz clipping, curso de capacitação que grupo ganhador de edital vem dar quando circula na nossa cidade. Como é mesmo? Lembrei: contrapartida cultural. Circulação, residência, diversidade cultural da SECULT e Lei Rubem Braga. Myriam Muniz, Petrobrás e Eletrobrás. Esses últimos, só os picas. A gente faz, a gente anota, a gente tenta. Inscreve um, dois, cinco. Compete com nego da capital, nego de Rio-SP. Ganha nada. Não, peraí. Ganhou um. Menor valor, dá graças a Deus. Faz, ensaia, tenta, resiste, agradece, estreia, viaja, repete. Volta pra casa, cozinha, passa roupa, vê filme, lê um livro, viaja naquilo e se alimenta daquilo. Recebe e-mail, telefonema: "você pode fazer um teatro aqui pra mim?" Fazer um teatro... nego pensa que a gente é arquiteto, engenheiro. "Cachê é tanto." "Nossa, muito caro!" Engole sapo. Não tem grupo, faz monólogo, convida amigo pra dirigir. O ensaio é solitário, cinco meses falando sozinho, ensaiando sozinho, treinando sozinho, vai pra cena sozinho, joga pro público. Plateia de 5, 7, 20, 30 pessoas. A gente agradece. Mãe, amigo, família. Bate palma, chora, respira e anda, apresenta no festival, não passa em edital, compete com bicho cabeça, alimenta filho, sobrevive com emprego paralelo, acaba assalariado. Não faz o que gosta, vai ao teatro pra encontrar a liberdade. Se entrega, se joga, esquece do mundo. Nego de toda parte vem e faz de tudo com a gente. A gente faz de tudo pros outros, pra gente, pro que não tem nome, vai pra toda parte e quer mais. Não adianta: a gente segue em frente e agradece.



Agosto de 2014.

O Dedo Podre

Seria muita petulância minha dizer que sou o melhor dos homens. Não, nem de longe. Esses dias mesmo, um diretor que tem a pretensão de montar Otelo, de Shakespeare, confessou a vontade de me convidar para interpretar Iago, o grande vilão da história, por conta da personalidade do personagem: irônico, sarcástico e de grande astúcia. Mas, minha Mãe santíssima, o que eu, Luiz, tenho a ver com esses adjetivos? Nada, claro. Mas é óbvio que tenho minhas pílulas guardadas a tiracolo de humor negro e vilania. Sou uma tempestade de emoções que fazem ruas transbordarem quando minhas intenções perversas vem a tona. Sim, também sou exagerado. É raro, aviso. Sou bom cidadão. Juro! Como bom filho de minha mãe, que bem me educou, pago meus impostos, pratico a honestidade, faço carinho em animais de rua e pratico a máxima da 'gentileza gera gentileza', já dizia o profeta. Ok, tudo muito humano, muito normal, dentro do caos do mundo em que vivemos, onde tudo muda enquanto muda tudo, é impossível não fazer uma comparação com quem a gente topa pela frente. E são tantos que passam por nossas vidas, vão e vem, uns ficam, outros, nunca mais... Fica a memória, a sensação. Pois bem, fui eu para São Paulo fazer um curso ótimo, excelente, de teatro. Por coincidência, o curso era sobre formas de interpretar Shakespeare. Muitos atores de São Paulo receberam a mim e um amigo de Guaçuí e, por lá, passamos quatro dias intensos de curso. Eis que ela surge: cabelos lisos, botas de cano alto, olhos castanhos escuros, grandes, dominadores, que não sabem se chamam mais atenção que sua enorme echarpe que lhe cobre o pescoço. Chega esfuziante sala a dentro chamando atenção. Sem um boa tarde que seja, considerável, dada a primeira vez em que todos se viam, puxa assunto com o tradutor presente (o professor do curso era inglês, o tradutor nos auxiliaria). Um inglês desenvolvido, claríssimo. Eu, que nem entendo do trato anglo-saxão, quase me sentia incluído na conversa. Ela tira os acessórios e põe suas manguinhas de fora: olhos de desdém, quase nada de contato corporal com os outros ali presentes, ignorava o próprio tradutor e se dirigia ao professor com seu inglês que, naquela altura, já nem me interessava mais. Suas palavras eram de repulsa ao que se praticava. "As pessoas não se dedicam...", "Acho que todos podem mais...", "Quando eu trabalhava com Antunes (Filho, importante diretor teatral brasileiro), não era assim...". Ah, mas aquilo me deu nos nervos. Que pessoinha nojenta! Que isso!? Como ignorar a capacidade intelectual alheia ali, naquela sala, daquela maneira, com aquela ínfima qualidade insuportável. Que desgraça! Veja bem, não é que ela seja ruim, mas é como um dedo podre numa mão de 30 dedos, é como um tumor cancerígeno que se retira com um sopro e se desfaz em poeira quando soprado. É um coisa tão pequena, tão mínima! Daí vejo que é dessa microscópica ação e reação minha que nasce um mal que frutifica, ganha corpo adulto quando chega ao nível da corrupção. Há uma semente que germina e soçobra no campo vasto do limite dos sentimentos. Nasce e morre para nascer de novo e morrer de novo. O problema é quando cresce, multiplica em sentido e ganha o mundo. Aí vira o mal, o dedo vira ser. O podre ganha o poder de dominar numa teia indestrutível. Há sempre, sempre houve e sempre haverá o dedo podre no meio do são. E ele vem vestido envolto em cachecóis, botas de cano alto e olhos de feitiço, feito para presente. Rejeite! Esses embrulhos que o destino nos apresentam são práticos: você vê, entende o que é e pronto, usa se quiser. Desuse! E esqueça. 

Julho de 2014

A Sauna Escura

Todas as noites de sábado ele tinha uma programação: ir à sauna gay localizada em Copacabana. Seu intuito não era o de conseguir sexo com o primeiro homem que aparecesse. Ele não era desses. Pensava:

- A experiência é boa. Tenho a noite livre, depois da sauna posso trocar de roupa e esticar a noite na pista de dança. Hoje eu só vou dormir às sete da manhã!

Dez da noite no Rio de Janeiro, a cidade ferve como sempre. Linda como sempre. Ele seguia o mesmo ritual: tomava banho lavando-se bem, colocava a roupa mais bacana e saia a pé mesmo pela Barata Ribeiro, querendo observar o movimento. No caminho, havia de tudo: bares movimentados, mendigos pelas calçadas, sirenes da polícia que transitavam na entrada da favela do Cantagalo. Ao chegar a boate, fechada naquela hora em que os frequentadores ainda nem pensavam em sair de casa, ele toma a porta estreita da esquerda. Já tinha ido lá antes, conhecia os esquemas.

- Boa noite, vim para a sauna. - Dizia ele, de forma simpática como sempre tratava servidores públicos. Para ele, quem trabalha atendendo ao público é prestador de serviços públicos. Simples assim.
- Claro, pode subir essa escada à direita e virar à esquerda. Lá, o recepcionista irá te atender.
- O valor continua em 30 reais, certo?
- Certo.

Sobe à direita, vira à esquerda, paga ao recepcionista que lhe dá uma toalha, um chinelo e uma chave. Era somente com aquela roupa que ele poderia entrar. A chave era para guardar a roupa que ele vestia num vestiário. Feito isso, ele já tinha local certo: a sauna escura. Lá dentro, a única luz presente era a externa que ocasionalmente invadia o espaço quando algum homem abria a porta para entrar ao lugar ou pela parede de blocos de vidro que existia numa lateral. Fora isso, vultos de corpos de todos os tamanhos e formas eram as únicas imagens visíveis. O cheiro do sexo se misturava com o aroma de menta que era jogado no espaço junto ao vapor d'água da sauna. As percepções se transformavam com a pele suada, os olhos tentando enxergar o detalhe dos corpos viris e que de repente topavam com um trio de homens que transavam ao lado, sem pudor algum. Pudor era vocábulo inexistente naquele lugar. Mesmo estando ali, disponível, sua cabeça não pensava em sexo. Havia algo muito inteligente naquele momento. Tudo era uma experiência sociológica, antropológica, política! Pensava: como esses corpos e essas cabeças se dispõem em um lugar como esse? Como a escuridão dá a possibilidade de multiplicar o contato, o sexo, o deslocamento dos corpos e dos pensamentos? A pessoa chega, escolhe o lugar que quer se sentar e por lá fica, fazendo o que quiser com seu corpo ou com o corpo do outro dentro, obviamente, das regras que a sauna estipula aos seus frequentadores. Quer coisa mais democrática do que isso? E o controle do corpo ao ser tocado ou simplesmente observado, como lidar? Estão todos nus, ainda que a toalha os cubra, todos sabem que o objetivo final é o sexo, função a mais que aquela sauna proporcionava. Ele pensa nisso ali, sentado.


Um homem chega. Vê-se apenas o seu vulto. Suas pernas se tocam e a pele da nuca se arrepia. Se dão aos mãos e vão para um quarto fechado.

Agora, a experiência é na prática.

Julho de 2014.

Diversidade e Multiplicidade

Um retorno cultural em Cachoeiro de Itapemirim

Localizada ao sul do Espírito Santo, a cidade de Cachoeiro de Itapemirim já revelou o talento de muitos artistas para o cenário cultural brasileiro. Seu histórico artístico, todavia, parece ter diminuído ao longo dos anos, fazendo com que os artistas que por lá surgem atualmente tenham que migrar de cidade para conseguir capacitação profissional e algum reconhecimento. Políticas de valorização desse patrimônio tem sido pensadas e revisitadas há pouquíssimo tempo, como a implementação de uma lei própria de incentivo cultural e um Conselho Municipal de Cultura. Há um trabalho grande a ser feito, pois a população da cidade é feita, em maioria, de uma geração que não teve a presença cotidiana de manifestações artísticas ao longo da vida. Os processos de democratização e popularização da cultura engatinham, mas mostram resultados como no teatro, em que deixou-se de apenas fazer espetáculos para educar jovens e adultos ao fazer teatral e ao ato de fruição artística. Em Cachoeiro, já é possível observar que repensa-se o hoje a favor de uma multiplicidade cultural no futuro.

A Asteca - Associação Teatral de Cachoeiro é um bom exemplo. Surgiu em 2002 a partir da união de grupos de teatro, atores, diretores e técnicos cênicos que sentiram a necessidade de uma formalização dos afazeres teatrais na cidade que se encontravam ilegalizados e sem nenhum respaldo legal para realizarem suas atividades. De lá para cá, apostou-se na arte-educação e na criação de espetáculos cênicos com o principal de intuito de democratizar o teatro na cidade, levando à população o conhecimento, a fruição, o prazer e as reflexões geradas a partir de um ato cênico. O aproveitamento das políticas públicas externas, oferecedoras de editais, festivais, encontros e meios de intercâmbio cultural levou a Associação a criar uma sede própria e ser contemplada pelo prêmio Ponto de Cultura do Ministério da Cultura. Com o prêmio, criou-se a Escola de Teatro Darlene Glória que educa e forma jovens e adultos entre 10 e 30 anos para às artes cênicas, desenvolvendo gerações na cidade que darão valor aos valores artísticos.

Pratica-se o respeito ao cidadão criador que possui liberdade para suas escolhas e pra exercer os seus direitos no acesso ao conhecimento. As aulas são dadas por esses atores e diretores que decidiram respeitar uma tríade para pensar na preservação do patrimônio material e imaterial que construíram: cultura, diversidade e desenvolvimento.


PS: Quer conhecer a escola? Vá a Rua 25 de Março, 171, no Centro de Cachoeiro. Em frente a Casa dos Braga.

Abril de 2014